Economistas contestam cortes de gastos como solução para conter a dívida pública

Economistas contestam cortes de gastos como solução para conter a dívida pública

Especialistas defendem que juros elevados têm peso significativo no endividamento brasileiro; debate sobre ajuste fiscal opõe redução de despesas e preservação de políticas sociais

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

A trajetória da dívida pública brasileira voltou ao centro das discussões econômicas após a eleição presidencial de 2026. Enquanto representantes do mercado financeiro defendem a redução das despesas governamentais como caminho para equilibrar as contas públicas, economistas de diferentes correntes questionam se cortes expressivos seriam suficientes para conter o endividamento sem comprometer serviços essenciais.

A dívida pública passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2022, para aproximadamente 82,9% em agosto de 2026. Nesse cenário, propostas de redução de gastos ganharam espaço no debate sobre as medidas que deverão orientar a política econômica do próximo governo.

Corte de despesas divide especialistas

Economistas identificados com correntes liberais ou ortodoxas apontam o crescimento da dívida como um risco para a estabilidade das contas públicas e defendem medidas de contenção dos gastos. Uma análise publicada pela revista Forbes, baseada em estudos do Instituto Fiscal Independente (IFI), chegou a sugerir cortes de até R$ 450 bilhões para estabilizar o endividamento.

Já especialistas de orientação desenvolvimentista ou heterodoxa alertam que reduções expressivas nas despesas podem atingir áreas como saúde, educação, Previdência e assistência social.

A professora Simone Deos, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), avalia que o aumento da dívida, por si só, não significa necessariamente risco de calote ou de aceleração da inflação. Ela ressalta que a dívida brasileira é denominada em moeda nacional e defende uma discussão mais ampla sobre os fatores que pressionam as contas públicas.

Fernando Henrique Lemos Rodrigues, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), também considera que o nível atual de endividamento deve ser analisado levando em conta as características da economia brasileira e a capacidade de arrecadação do Estado.

Juros elevados pressionam o endividamento

Entre os principais pontos levantados pelos economistas está o custo dos juros da dívida pública. Segundo dados do Banco Central citados pela Agência Brasil, o país desembolsou cerca de R$ 1,1 trilhão com juros nos 12 meses considerados pela reportagem, o equivalente a 8,86% do PIB.

Para os especialistas ouvidos, esse custo tem impacto relevante sobre a evolução da dívida e precisa ser considerado junto às despesas primárias, que incluem os recursos destinados à manutenção dos serviços públicos e à execução de políticas governamentais.

Rodrigues argumenta que a pressão por cortes pode dificultar a preservação dos investimentos e dos direitos sociais. O Banco Central, por outro lado, relaciona a manutenção de juros elevados, entre outros fatores, às pressões inflacionárias e aos desequilíbrios fiscais.

Brasil e outros países

A comparação internacional também aparece no debate. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) referentes a 2024, citados na reportagem, mostram que países como Japão, Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Canadá registram níveis de dívida pública superiores aos do Brasil. A Índia apresenta um percentual próximo ao brasileiro.

Para Simone Deos, esses números indicam que o endividamento precisa ser avaliado considerando as particularidades econômicas de cada país, e não apenas por um percentual isolado.

A economista também chama atenção para o peso dos juros no orçamento público e defende uma estratégia coordenada para reduzir seu custo e melhorar a qualidade das despesas governamentais.

Propostas de ajuste fiscal em debate

Durante a campanha presidencial, a equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL) defendeu mudanças nas regras fiscais e um ajuste estimado em aproximadamente R$ 190 bilhões, equivalente a cerca de 1,5% do PIB de 2025. A proposta foi criticada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que alertou para possíveis impactos sobre aposentadorias e programas sociais.

A equipe de Lula, por sua vez, defendeu um ajuste gradual, com medidas para controlar o crescimento das despesas e preservar políticas públicas. O governo também destacou a retomada da atividade econômica e a melhoria da eficiência dos gastos como instrumentos para avançar no equilíbrio fiscal.

As propostas partem de diagnósticos diferentes sobre as causas do endividamento e sobre a melhor forma de enfrentá-lo. A definição das medidas dependerá das decisões econômicas do governo, das condições fiscais e das discussões com o Congresso Nacional.

Especialistas defendem debate sobre qualidade dos gastos

Apesar das divergências, a avaliação da qualidade das despesas públicas aparece como um ponto relevante para a discussão. Simone Deos defende que a busca por eficiência não deve comprometer políticas sociais e investimentos necessários ao desenvolvimento.

Rodrigues, por sua vez, argumenta que gastos públicos também podem estimular a economia, gerar empregos e ampliar a arrecadação ao longo do tempo.

O debate sobre a dívida pública, portanto, envolve não apenas o volume de recursos gastos pelo Estado, mas também o custo do financiamento, a capacidade de arrecadação e os efeitos das decisões fiscais sobre a atividade econômica e os serviços oferecidos à população.

(Com informações da Agência Brasil)



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