
— Por David Ribeiro Jr. —
Teófilo Otoni
Até tu, Brutus, meu filho?!
Ou melhor: Até tu, Michelle, minha quase madre?!
O clima na direita brasileira está mais para filme de suspense político do que para campanha eleitoral. Que horror!
Eu, David, estou lançando nos próximos dias um thriller político em forma de livro intitulado “A JOVEM GOVERNADORA”. Meu livro, modéstias às favas, é mais empolgante de acompanhar, mas, por mais que eu o tenha concebido imitando bastante a vida real, dificilmente poderia ter pensado em algo como o embate de Michelle com Flávio Bolsonaro — embora, sendo bastante realista, acredito, de verdade, que ela seria uma candidata com muito mais potencial de vencer Lula. Pronto, falei!
No centro dessa confusão, Michelle Bolsonaro, esposa de Jair e madrasta de Flávio, foi, ao que tudo indica, protagonista de uma das jogadas políticas mais ousadas — e arriscadas — desta pré-campanha. Mas, pelo menos num primeiro momento, o tiro saiu pela culatra.
Vamos aos fatos:
O vídeo-bomba de Michelle
Michelle publicou um vídeo extremamente bem-produzido — iluminação perfeita, enquadramento pensado, texto direto, tom emocional calibrado, elementos visuais aqui e ali — em que, citando nomes (ela não ficou em cima do muro), se colocou como vítima de ataques internos da família. Falou de traições e atitudes reprováveis do enteado Flávio “que deveria estar na mesma sintonia, mas que escolheu feri-la”.
Se você não assistiu ao vídeo, acompanhe agora:
De forma categórica (não foi insinuação), disse que há quem esteja usando o nome Bolsonaro em ações que o próprio [Jair] Bolsonaro proibiu (como o endosso à aliança que quer eleger Ciro Gomes governador do Ceará).
Quando vi o vídeo, e sua repercussão, lembrei-me daquele famoso refrão: “essa família é muito louca, e também muito engraçada. Brigam por qualquer razão, e acabam não pedindo perdão…”
Ah… a letra da canção não é assim?! Tudo bem. Mas os Bolsonaro são assim.
Michelle não mandou um recado qualquer. Ela disparou um míssil. E acertou em cheio à campanha de Flávio.
O objetivo real
Eu, David, não tenho dúvida: Michelle quis colocar um prego definitivo no caixão político de Flávio — metaforicamente, claro! — e encerrar de vez a pouca viabilidade eleitoral que o enteado ainda tinha para assumir seu lugar na disputa. Como eu já disse antes: acredito de verdade que ela tem mais potencial do que ele para vencer Lula. Se o clã tivesse mais juízo, não pensaria duas vezes em trocar o nome da cabeça de chama. Mas…
Não estou dizendo que Michelle seria uma presidente melhor. Em momento algum eu disse ou escrevi isso; mas tenho certeza de que meus colegas profissionais de comunicação e Marketing concordam que ela é, disparada, uma “candidata melhor”. Oferece mais material para ser trabalhando junto às massas.
Por que digo isso?
Simples. Porque Flávio está desgastado com o escândalo Vorcaro; Flávio está fragilizado com os ataques públicos da própria Michelle (que nunca o endossou publicamente, mesmo antes de toda essa celeuma); Flávio está sendo citado em uma suposta manobra jurídica envolvendo o advogado Willer Tomaz para tomar a casa do jogadorr Richarlisson; Flávio não tem apelo com o público feminino, onde a direita mais perde votos; Flávio tem “amigos” atolados até o talo em suspeitas de envolvimento com certas organizações… digamos, que ele mesmo pediu ao governo americano para combater. E agora o pior de todos os problemas: Flávio está sendo acusado de sacrificar a soberania nacional em troca de apoio dos Estados Unidos à sua eleição. Tá complicado!
Michelle, ao contrário, tem carisma, tem apelo, tem narrativa, tem público fiel — especialmente entre mulheres evangélicas, que deveria ser o coração da base bolsonarista. Ela viu a oportunidade e tentou ocupar o espaço. A jogada foi ousada, mas será que foi bem-calculada?
Não. Não foi. Como diria Garrincha: “Faltou combinar com os russos”. Ela poderia ter pedido a aliados para começar a questionar se Flávio era, de fato, a melhor opção. Mas não fez isso. Preferiu que todos os questionamentos fossem feitos a partir do seu vídeo. Se eu fosse o seu marquetólogo, teria lhe orientado a inverter as coisas.
Michelle apostou alto. Muito alto. E apostou sem preparar o cenário.
Ela jogou a bomba esperando que a família Bolsonaro reagisse com lógica. Mas, convenhamos, lógica é a última coisa que se pode esperar daquele clã. O resultado do vídeo foi que a ala ligada a Flávio pressionou, a ala ligada a Michelle pressionou de volta; o núcleo duro ficou dividido e o partido ficou vulnerável e sem um líder forte.
Sabe quem mais ganhou com o vídeo de Michelle?
Respondo pra você: Valdemar Costa Neto, o grande e verdadeiro maestro. Com a autoridade de Bolsonaro comprometida, todo mundo volta a pedir bênção ao homem que tem a chave do cofre do fundo partidário e do fundo eleitoral. Bolsonaro ainda é um ativo importante — só um idiota diria o contrário —, mas começa a dividir protagonismo com nomes como…
Michelle… que ainda que não assine mais Bolsonaro, já ganhou força com o episódio;
Nikolas… que ainda não pode ser candidato a presidente por causa da idade, mas que está se tornando um ativo tão poderoso quanto o próprio Bolsonaro. Eu já cantei essa pedra há exatamente um ano (leia aqui).
E Valdemar, agora, se finge de neutro, porque, publicamente, ele sabe que é ruim brigar com Michelle, mas também é ruim brigar com Flávio. A manobra — a publicação do vídeo — removeu a “aura de santa” de Michelle (e a tornou mais dependente do partido). Também removeu a pecha de herdeiro natural Flávio ostentava ser do Bolsonaro pai (o senador já não conseguia ser a unanimidade que o pai foi em outros tempos. Agora, então…).
Com tudo isso, Valdemar se ergue cada dia mais forte e poderoso. O PL, ainda que não eleja o presidente, vai se firmar como a grande máquina da oposição, e Valdemar será o grande maquinista, mesmo que não apareça tanto — ele não tem necessidade de ficar em evidência, como o clã Bolsonaro tem.
Chego a pensar que Valemar nem liga mais se Flávio tem ou não chances de se eleger. Seu verdadeiro objetivo agora é fazer o maior número possível de deputados federais para aumentar o fundo partidário do PL e torná-lo ainda mais rico e poderoso.
Terminando…
Michelle tentou se apresentar como alternativa. Tentou ocupar o espaço. Tentou virar o jogo. Mas jogou antes da hora e sem combinar com o elenco. Jogou sem preparar o terreno. Agora, o que era para ser uma jogada de mestre, virou uma crise familiar transmitida em alta definição com direito a trilha sonora e tudo mais:
“Essa família é muito louca, e também muito engraçada. Brigam por qualquer razão, e acabam não pedindo perdão…”
Como eu sempre digo: quem viver, verá!






